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Longa Jornada Contra o Inimigo

Sem opções agradáveis de divertimento, um escritor decide tentar desenvolver um conto ou crônica, ou quem sabe, uma carta de suicídio, pois vivia uma fase de abundante criatividade. Ao confortar o corpo sobre sua cadeira turca, uma torrente de idéias foi derramada de sua mente. Como é de praxe, apagou as luzes convencionais, deixando como fonte de luz, apenas o abajur de sua mesa.
“Muito bem, acho que um conto dramático\sarcástico sobre a dificuldade de se ter um relacionamento duradouro com mulheres ia ser totalmente clichê, não é mesmo?”, depois de chegar a esse pensamento, entendeu que esta é uma opinião unânime. Adorava usar personagens infreqüentes, talvez fantasiosos. Personagens que não apresentassem uma vida maçante. “Mas quem?”, essa pergunta ficou cada vez mais recorrente. Eis que pensou: “Como seria o Homem de Lata e o Espantalho divagando sobre a dificuldade de sustentar um relacionamento?”
Começou a imaginar uma série de diálogos e situações, até ser interrompido por um som demoníaco. O agradável silêncio foi cortado por um inconveniente inseto que sentia prazer em ficar se debatendo junto à lâmpada do seu abajur. Tentou ignorá-lo e continuar seu serviço, pois o conto deveria ser entregue em quatro dias. Seria seu conto de número duzentos e seria lançado no programa “Palavras Esquizofrênicas de uma vida solitária”.
“Droga!”, pensou. “Logo agora? Com tantos cômodos pela casa, com tantas luzes pela casa, tinha logo que se alojar em meu quarto?”, mas é claro que sim! O quarto permanecia todo fechado para total privacidade. “Tenho de pensar em alguma coisa… Mas o que?”, novamente sem sucesso, tentou ignorar a desagradável mosca, que a cada minuto parecia maior e mais agitada.
“Apagarei todas as luzes do quarto, e esperarei que a mosca consiga sair do meu quarto usando toda sua astúcia.”, ele já pronunciava essas palavras ao invés de pensar. “Mas não! O monstro não mordeu minha isca.”, tentou em vão atraí-lo com a luz do monitor de seu laptop, para assim esmagá-lo.
Sabemos que em um mundo onde os humanos são inteligentes ao ponto de destruir a camada de ozônio ano após ano; um mundo onde as pessoas pagam para assistir Harry Potter. Um mundo onde os perfeitos e superestimados humanos, passam dia após dia, derramando seus lixos em rios e mares. Onde jogadores de futebol ganham quatrocentas vezes mais que um marido honesto, que só bate em sua mulher quando o resto da família já se retirou. Em um mundo justo e real assim, um mosquito não fala, mas, se falasse, ele estaria dizendo: “Como esse escritor é ridículo. Ele acha que tem uma carreira de sucesso. Coitado, ele só consegue espaço para os contos porque é o dono da revista.”, após dizer isso, o mosquito falante provavelmente pensaria: “Mas se ele tem a possibilidade de ser dono de uma das revistas mais famosas do Brasil, é sinal que ele tem sucesso…”
Nesse meio tempo, o escritor continuava arquitetando a armadilha perfeita. Estava com seu chinelo em mãos, pronto para esmagar seu inimigo como um soldado louco para matar. Não como Kirk Douglas em Glória Feita de Sangue, mas como Link Stuart em Sol Vermelho. Sentou-se novamente e continuou traçando a morte do temido mosquito vietnamita.
Depois de algumas horas e tentativas frustradas, nosso escritor, finalmente se rendeu ao inimigo: “Muito bem, aberração, cansei do seu jogo irritante! Vou por os fones de ouvido e trabalharei em paz!”, E assim fez. O trabalho se desenvolvia bem, até que o mosquito reapareceu e começou um ataque aéreo em seu abajur e em sua paciência. O escritor pôde perceber o egocentrismo do mosquito ao vê-lo parado em frente ao espelho e admirando a suástica tatuada na testa, entre seus milhares de olhos.
“Acho que ele se foi.”, pensou o escritor. “Agora voltarei ao conto.”, mas o mosquito – sim, o mosquito – voltou e agora parecia muito mais disposto a acabar com o restante da noite.
“Quem ele pensa que é?”, zumbiu o mosquito. “Um conto sobre personagens infantis… prefiro atrapalhar alguém mais interessante.”, pensou o mosquito assim que pela primeira vez resolveu prestar atenção no que escrevia o escritor (Sim, redundância!). Começou uma busca traumática por uma saída daquele quarto. Não conseguia dividir um ambiente com alguém tão limitado. Em algum momento dessa jornada pela sobrevivência e orgulho, nosso escritor pôde ficar frente a frente com o mosquito. O mosquito zumbiu as mesmas palavras de Mussolini ao ser assassinado – em óbvia referência à sua personalidade egocêntrica: “Atirem aqui!”, (disse ele apontando para o peito). “Não destruam meu perfil”.
Nesse exato momento, no ápice da excitação, o escritor esbarrou uma das pernas na tomada do abajur, fazendo com que o quarto ficasse totalmente escuro, assim, perdendo seu inimigo voador de vista. Resolveu esquecer tudo aquilo, uma vez que já começava a pensar se tudo era realmente real ou se já estava sonhando.  Um silêncio pairou sobre seu escritório, mas esse silêncio foi quebrado quando ouviu um som já conhecido: O som de alguma coisa chocando-se contra as hélices de um ventilador. Uma faceta de felicidade ficou escancarada, quando ao acender novamente a luz, pôde visualizar o corpo de seu inimigo, que certamente ao perceber o fracasso de sua missão, e sem coragem e olhar os olhos de seu superior, cometeu suicídio.
“Tome isso!”, completou o escritor ao esmagar o mosquito nazista com seu enorme pé.

Respirou fundo, pegou uma taça de vinho e voltou feliz ao seu tão aguardado conto sobre a vida amorosa do Homem de Lata e o Espantalho: “Nos bastidores de Oz.”

Revisão: Patrícia Alison

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Categorias:Uncategorized
  1. 5 de setembro de 2011 às 1:29

    Ficamos agradecidos. Olha só, a maioria das legendas caçamos por aí, mas como pode notar, tem alguns filmes do blog que não tem legenda. Alguns filmes nós mesmos legendamos ou extraímos a legenda de um dvd, mas isso é bem escasso aqui, infelizmente. O que gostaria de saber exatamente?

    [postado por mim nos comentarios do blog A privada cult]

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