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Nos Bastidores de Oz.

O dia se arrastava pelos caminhos obscuros de Oz. Os produtores corriam contra o tempo e Victor Fleming já estava ficando sem paciência com os atrasos de Judy Garland. As filmagens do dia estavam atrasadas, uma vez que os maquiadores não conseguiam dar um jeito no cabelo do leão e, se me perdoem o trocadilho; o cabelo dele estava uma juba. Findo dia, Fleming dispensou o Homem de lata e o Espantalho, pois suas cenas já estavam gravadas, só esperando pela edição.
“Tudo pronto. Vocês estão dispensados, até amanhã.”, disse Fleming. “Ah! Homem de lata! Tente ensaiar mais umas três vezes o numero de dança da tomada seis. Você está meio enferrujado.”, zombou o diretor. “Deus, minhas piadas são horríveis… meu próximo filme vai ser um drama de 4 horas de duração! Só para me vingar dos que não me levam à sério como diretor de comédias.”, pensou Fleming.
O Homem de lata e o Espantalho caminhavam para fora do estúdio. Exaustos, e há muito sem ver suas namoradas, resolveram esticar a noite num barzinho da região.
“Diz aí, Homem de lata, o que está pegando?”, o Espantalho puxou assunto, tentando evitar os boatos de elenco rachado.
“Meu casamento… Está mais complicado de manter a relação com minha mulher. Com minha amante é a mesma coisa.”, disse o cabisbaixo Homem de lata.
“Bem vindo ao clube, companheiro.”, respondeu o Espantalho. “Minha mulher reclama que eu nunca entendo os assuntos dos amigos dela, ou até mesmo os dela. Ela faz papel de boba quando conta piadas intelectuais. Eu nunca entendo nada. Nossos amigos me apelidaram de “cabeça”, lógico que isso não se faz. O pior é que não sei o que fazer.”
“Mas você foi bem claro com ela. Não foi? Afinal, qualquer leão medroso sabe que o espantalho não possui cérebro, logo, não podemos exigir muito dele, pois geralmente são muito burros. Mas te digo isso com todo respeito.”
“Eu sei… Foi difícil chegar até aqui. Quando eu era criança, nunca era chamado para os times de futebol, eu sempre fazia gol contra. Reclamavam que eu nunca entrava duro nos adversários. Mas e o que acontece com você?
“Quase a mesma coisa. Minha mulher reclama que eu não sou sensível. Grita aos quatro cantos do mundo que se casou com alguém que é frio e calculista, alguém incapaz de dar o amor que ela sempre sonhou.”, ao dizer isso, fez sinal para entrarem no bar.
“Essas mulheres andam exigentes. Sabe o que minha mulher propôs?”
“Diga – lá.”
“Que eu me aproximasse da Judy Garland. Ela diz que não sou valorizado no elenco. Que ganhou pouco. Que se conseguisse dormir com a Judy, conseguiria mais moral com o Victor. Vê se pode! Hoje em dia as mulheres não ligam para o amor.”, desabafou o Espantalho.
“Minha mulher pediu a mesma coisa! Essas mulheres perderam o respeito próprio. Minha amante está começando a ficar desconfiada. Eu sempre saio com ela nas terças e sextas. Com minha esposa eu fico os outros dias. Mas, está complicado… não consigo manter nem meu casamento, quanto mais outra relação. O pior são as exigências: Jóias, roupas de grife, viagens, autógrafo do Clark Gable…”
“É, meu amigo. Pelo jeito vamos ter que tirar na moeda pra ver quem dorme com a Judy, porque eu também ando precisando de mais dinheiro. Sabe a Rita, a estagiária de produção? Então, estou saindo com ela também!”, gabou-se o Espantalho.
“Santo Deus! A gostosa da Rita! Eu sonho com aquela mulher todo santo dia. Como você consegue? Digo, o boato pelo estúdio é que você anda meio mole.”, sussurrou o Homem de lata.
“Isso é coisa antiga. Agora estou usando um remédio que é tiro e queda. Consigo mais de quatro vezes seguidas. O complicado é quando as mulheres querem conversar depois do sexo. Nessa hora tudo vai por água abaixo. Esse é o real motivo pelo qual elas me abandonam: A falta de diálogo. E você sabe como essas mulheres falam pra cacete. Não existe jóia ou luxo que as faça fechar a boca.”
“Mas sabe o maior boato do estúdio?”, perguntou o Homem de lata.
“Qual?”, perguntou o Espantalho.
“Victor anda dando umas aulas extras de movimentos corporais para Judy. Não reparou como os seios dela aumentaram nesses meses de filmagem? Quando ela chegou aos testes, parecia uma versão piorada do corpo da Audrey Hepburn.
“É verdade. Muito mais anoréxica!”
“Ano o quê?”, perguntou o Homem de lata.
“É uma palavra que inventei. Significa ‘Mulher sem fazer sexo’ , acha que está gorda e para de comer. Pois sempre que se olha no espelho, pensa estar gorda, quando na verdade, está uma caveira.”, explicou o espantalho.
“Como é que você pensa numa coisa dessa e não consegue entender piada sobre os cinqüenta judeus escondidos no carro nazista?”, perguntou o indignado Homem de lata.
“Isso eu só revelarei no meu E True Hollywood History.”, fez sinal e pediu mais uma rodada de chope ao garçom. “Mas que safada essa Judy! É por isso que conseguiu o papel. Ela não canta merda alguma. Mas e o lance da pedofilia? Ela é apenas uma criança. E se a mídia descobrir? Você sabe como são esses jornais…”
“Que criança? Ela tem 34 anos!”, exclamou o Homem de lata.
“Cale a boca! Ela é apenas uma menina!”, gritou o Espantalho.
“Você não soube? A produtora exigiu em contrato que ela não poderia engordar, nem engravidar, nem crescer, nem mudar a voz. Então ela toma milhares de pílulas para controlar voz, crescimento, hormônios, etc.”
“Deus do céu! Nem se eu tivesse um cérebro eu iria desconfiar disso. É cada coisa que descobrimos nos bastidores de Oz.”, disse o Espantalho.
“É verdade… Olha… Acho que vou indo nessa. Já está ficando tarde, antes das dez, tenho que passar na casa da Rita. Temos uns assuntos para terminar. Acho que vou terminar com ela. Estou cansado de sempre levar pé na bunda. Amanhã depois das filmagens, a gente resolve quem vai investir na Judy.”, chamou o garçom e pagou a conta.
“Eu também estou de saída. Amanhã vou ter que chegar ao estúdio muito mais cedo. Essas cenas da floresta estão me matando. E Deus, quem foi o idiota que criou o cenário de fundo?”
“Não sei. Só sei que ficou horrível. Qualquer um consegue notar onde termina a floresta e começa a parede desenhada. Ainda estou arrependido de não ter aceitado aquele filme com o Humphrey Bogart.”, lamentou o espantalho. “Eu apenas ia ficar parado no meio da fazenda. Isso sim é vida. Bem, até amanhã.”
“Até.”, respondeu o Homem de lata.
Depois de uma longa caminhada, o Espantalho finalmente entrou em seu quarto de hotel. Já estava há quinze dias sem ver a mulher e a amante. Sentia mais falta da amante, pois segundo ele, amante não se pode ver todos os dias, pois a amante vai começar a ser tão chata como a esposa. Ligou para uma prostituta – na verdade era a bruxa má de Oz, pois o cachê recebido por ela não dava para todos seus gastos e tratamentos de beleza – e pediu serviço de quarto.
O Homem de lata fez o mesmo: Caminhou cambaleante – devido ao enorme barril de chope que bebeu. Mal conseguiu achar o quarto certo. Depois de um banho gelado, o Homem de lata ligou para o serviço de quarto: “Mandem uma camareira loira e curvilínea! Estou precisando de uma troca de óleo.”

Revisão: Patrícia Alison

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Categorias:Uncategorized
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